Como ser criativo em tempos de crise

Publicado por erivaldocarneiro em

Como ter criatividade?

Um dos momentos de maior inspiração que eu tive na minha vida foi por causa de um crise de criatividade. Um blackout criativo. Ele aconteceu na reta final da escrita de minha tese.

Era 22 de dezembro de 2018. “Faltavam apenas seis metros” para cruzar a linha. A torcida era grande. Mas algo errado aconteceu. Eu caí. Bem perto da linha de chegada.

Ainda faltavam três meses para entrega da versão final, mas o prazo pessoal estava acabando. E assim, do nada, eu travei na escrita e não conseguia escrever mais uma frase.

Eu estava realmente cansado. Os últimos três meses tinham sido os mais intensos de toda minha vida.

Fui morar em outro país, outra cultura, com outro idioma, que eu estava me esforçando para aprender. A nostalgia das festas de fim de ano e o mix de tristeza e alegria que por si só elas trazem. Tudo isso fez a tempestade perfeita.

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A pressão para terminar de escrever a tese. Aqueles dias curtinhos que a noite beijava a gente logo cedo. Tudo era novidade. Parecia que o cérebro não parava. A minha atenção estava 100% dedicada a tudo, o tempo inteiro.

Naquele dia, a atenção desapareceu. E eu tive um blackout criativo. E U2 tocou na minha cabeça.

When the lights go out, throw yourself about / Quando as luzes se apagam, se atire sobre The darkness where you learn to see / A escuridão onde você aprende a ver When the lights go out, don’t you ever doubt / Quando as luzes se apagam, não duvide The light that we can really be / A luz que podemos ser

Blackout, it’s clear, who you are will appear / Blecaute, está claro, quem você é, aparececerá Blackout, no fear, so glad that we are all still here / Blecaute, não tema, que bom que ainda estamos aqui

No fundo, todos nós sabemos como reacender a luz da criatividade quando ela se vai.

No dia do apagão eu tentei acender novamente a minha. Já sabia o que fazer, não era a primeira vez que aquilo acontecia.

Sai do meu office, desci as escadas, pedi um café “salted caramel” e fui fumar um cigarro. (Não sou mais fumante. Depois conto como foi a experiência de parar de fumar.) Esse ritual fazia minha criatividade retornar. Organizar as ideias.

A Universidade de Surrey era um lugar fantástico para escrever uma tese. Eu amava o caos que era meu office. Mas naquele dia não foi e fui o caos.

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Naquele dia, justo naquele dia, não deu certo. Primeiro veio o pânico. Acho que todo mundo passa por isso.

Segundo, (no meu caso) muito rapidamente, veio a racionalização. Eu ainda tinha tempo e faltava pouco terminar. Isso deu uma acalmada na agonia mental.

Quando essas coisas acontecem, a melhor coisa a fazer, é dormir. Passada a agonia inicial, tudo vai se ajeitar.

Foi o que aconteceu. No outro dia, ao acordar, veio a inspiração. Ao invés de ir para a Universidade tentar escrever a parte final da tese, eu fui para lá escrever meus Agradecimentos.

Naquele momento, enquanto fazia meu ovo com cogumelos e a chaleira apitava, eu tive um estalo criativo. Eu decidi escrever os agradecimentos de uma forma diferente.

Resolvi escrever meus agradecimentos em forma de carta.

E então, naquele dia, comecei a escrever uma carta para mim mesmo. Mas não foi uma carta qualquer. Foi uma carta para mim quando criança.

A rotina estava tão frenética que não conseguia parar para racionar em nada que não fosse acabar logo com a tese.

Ter o bloqueio criativo, bem naquele momento, virou um marco na minha vida pessoal. Me fez desacelerar e perceber o que estava se passando dentro de mim. Eram coisas muito bonitas. E eu não percebia.

Naquele momento eu precisei retornar para quem eu era. Mais do que isso, escrever os agradecimentos em forma de carta foi uma forma de revisitar toda o meu percurso para chegar até aquele momento de minha vida.

Ao agradecer ao menino que eu fui, eu também agradeci às pessoas, que foram significantes para que estivesse ali. E tinha sido muita gente.

Não foi uma tarefa fácil. E também não foi concluída no mesmo dia que começou. Eu estava escrevendo uma carta para alguém que foi responsável por tudo que eu estava me tornando. Tinha que escrever com capricho.

Às vezes a gente acha que as feridas estão saradas. Não estão. Diversas vezes foi preciso parar de escrever. O choro vinha e voltava como uma gangorra.

Entre um descanso e outro das festas de fim do ano, a Carta-Agradecimentos foi concluída.

Eu só voltei pra tese após terminar a carta. E sabe o mais engraçado? Depois de passar por aquele processo, eu precisei apenas de 12 horas de trabalho e a tese estava terminada e algumas lições aprendidas, que compartilho com vocês.

  • O processo criativo é um processo muito pessoal e cada um sabe onde o calo aperta. Por isso, não acreditem em fórmulas mágicas. A resposta vai vir de você.
  • Agradecer pode ser uma forma da gente se reconectar com o que ou quem nos inspira. No momento do blackout total, eu precisei revisitar minha história e relembrar das pessoas que foram importantes para chegar até aquele momento.
  • As crianças que fomos viram adultos e adultas sérios e sérias. Isso é uma merda! (me perdoem o palavrão)
  • Precisamos manter a chama da criança viva em nós. Crianças são criativas o tempo todo. Nos reconectar com a nossa criança pode ajudar a superar apagões criativos.
  • Todos nós, que de alguma forma usamos nossa criatividade para ganhar a vida, precisamos ter estratégias para superar os momentos de apagão. Perceber como nos reconectamos com nosso eu criativo pode nos fazer sair dos blackouts.
  • Quando um apagão criativo chegar, acolha ele, chama pra tomar um café ou um chá. Ele vai te surpreender com as coisas que ele que ele tem pra falar.

Caso não queira acolhe-lo, escreve uma carta pra ele. Vai que…?

Ah, ficaram curiosos para ver a Carta – Agradecimentos? Olha aqui! Separa o lencinho.

Pra finalizar quero dizer que me senti super importante hoje, ao ouvir o primeiro episódio do podcast de Lucas Morello e Tiago do Tira do Papel o PodCrê, eles falaram sobre o como foi processo de escrita do livro Trabalhe 4 Horas por Semana de Timothy Ferriss. O cara escreveu o livro no momento de crise criativa e a forma que ele encontrou para superar o momento foi escrevendo cartas para os amigos.

Genial, não é? É eu sei! Já fiz igualzinho, sem saber. E vocês, como superam os vales criativos? Mais alguma sugestão?

Processando…
Sucesso! Você está na lista.

erivaldocarneiro

Oi, eu sou Erivaldo Carneiro. Se quiser, me chamar de Eri, tá tudo certo. Sou um aspirante a escritor e em breve você poderá me ler em qualquer banca de rua entre carregadores de celular, revistas vencidas e cigarros baratos. Gosto de falar sobre tudo, mas a minha paixão é pela Metodologia Científica. Ela já salvou minha vida. Pode salvar a sua. Também.

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