Precisamos conversar sobre esse negócio de acreditar em nós mesmos

Publicado por erivaldocarneiro em

Pró Amélia era uma senhora de idade, baixinha, franzina e foi minha professora de métodos em pesquisa qualitativa. Dava aulas apenas pelo simples prazer de ser Professora e estar na sala. Era perceptível sua empolgação. Dizia que o contato com os alunos a mantinha viva.

Também Cansei de ouvir dela coisas lindas sobre ser gente de verdade e como o conhecimento podia transformar vidas. Mas de todas as falas dela, nunca vou esquecer a da primeira aula. Me marcou para sempre.

Se não me falha a memória, foi algo assim:

“Olhem só, crianças… Vocês estão começando a pensar no projeto de tese de vocês e eu quero dizer que escrever uma tese é algo muito sério. Tudo que vocês escreverem nela, vocês irão levar pelo resto da vida. Por isso, ao pensar nela (a tese) entendam que ela deve refletir o que vocês acreditam, os seus valores e a essência do que vocês são.

Ao ouvir esta fala, a minha cabeça bugou e eu comecei a pensar muito no que ela quis dizer com aqueles tempos verbais imperativos. Era tudo muito sério. E eu nunca tinha pensado sob aquela perspectiva.

O projeto já havia começado a ser escrito e para falar a verdade, estava era muito do infeliz. Aquelas linhas não me representavam. Eu não me via nelas.

O que é uma tese?

De maneira bem simples, pensar numa tese é pensar em um problema que existe e ainda não foi resolvido.

Que a gente, pretensiosamente, imagina que não tenha sido resolvido.

Esse problema vem de uma teoria e então a gente pega essa teoria e utiliza ela como lente. Testa hipóteses. Explica um fenômeno que está ocorrendo no mundo real. Com os resultados e a conclusão, temos uma tese e uma possível contribuição para o mundo e para a ciência.

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Mas voltando ao meu projeto…

O problema morava na ideia das teorias que eu deveria usar. Enquanto indivíduo, elas não faziam nenhum sentido para mim. Elas não me representavam enquanto pessoa. Eram conhecimentos que se baseavam puramente na ideia de recursos, instituições, economia e no relacionamento entre empresas.

Na minha leitura de mundo e para o que acreditava e acredito, essas teorias não da conta do elemento básico que forma e garante o sucesso de qualquer organização:

As pessoas e os relacionamentos entre elas. Gente real e não apenas sobre dinheiro e recursos.

Se antes já não me conformava com a ideia de usar as teorias, imagina depois da aula de Pró Amélia? Pois é! Naquele dia, ao terminar a aula decidi que iria arrumar uma maneira de colocar a minha voz na minha tese.

A pesquisa…

A minha pesquisa explicou como as empresas podem ter cadeia de fornecedores com mais sustentabilidade.

E na minha cabeça, mais que um aspecto econômico (que é super importante), a sustentabilidade é sobre cuidado com o meio ambiente, direitos humanos, é falar sobre condições dignas de trabalho para todos. Falar de sustentabilidade é falar de amor e respeito ao próximo.

A sustentabilidade precisa e deve falar sobre o mundo que vamos deixar para as próximas gerações.

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E outra, a sustentabilidade ganha mais potência, ainda, quando ela é incluída no contexto da cadeia de suprimentos. Trabalho escravo, infantil, péssimas condições de trabalho e todas essas problemáticas que constantemente vemos aparecer nos noticiários.

Com o fenômeno da globalização, as empresas terceirizaram suas produções para países que são tidos como a periferia do capitalismos.

Não fazemos a menor ideia por quantas mãos a roupa que vestimos, o computador e celular que usamos passaram. Isso é muito cruel. Perdemos a noção de tudo o que é e como é produzido.

Vendo tudo isso acontecer, somado com a inquietação pessoal de ter que escolher uma teoria econômica, para explicar fenômeno humano em um contexto tão cheio de problemas, eu parti em uma missão solitária.

Eu precisava me encontrar

Me recusava e explicar quatro anos de vida pela lógica do capital. Eu queria mais.

Eu queria uma teoria da Sociologia, da Filosofia, da Biologia. Algo que me conduzisse a uma jornada de crescimento e uma contribuição de verdade.

Comuniquei ao meu orientador. As velas seriam ajustadas para os novos ventos. Ele me apoiou. Disse que não seria fácil. O desafio era grande. Tive medo. Fui chamado de maluco por várias pessoas, por querer fazer algo que não é muito comum na área de administração.

– Quem já se viu colocar sociologia no meio de sustentabilidade, de cadeia de suprimentos?

– EU!

Já tinha passado mais de dois anos e não conseguia achar a bendita lente teórica. No meio disso tudo, tinha o rito de apresentar o projeto para uma banca validar. A qualificação. Cumpri essa etapa mas não tinha certeza de nada. O projeto, da maneira que estava posto, era frágil. Sabíamos disso. Fui duramente criticado, mas qualifiquei.

Eureka!

O fato é que só vim me achar, de verdade, na pesquisa já pela metade do terceiro ano do doutorado.

Faltava um ano e meio para terminar e quase prestes a aceitar uma teoria econômica, a Sociologia me salvou.

Uma teoria que falava de confiança, reciprocidade e comprometimento nas relações entre as pessoas foi quem me deu um novo fôlego de vida. A Teoria das Trocas Sociais passou a povoar meus pensamentos e foi escolhida para ser a base de minha pesquisa.

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Quando me achei, tive certeza que o que acontecesse daquele momento em diante, iria fazer por mim, movido pelas minhas crenças e pelos meus valores.

Não me recordo de ter trabalhado tanto em alguma coisa como foi nesses 18 meses que antecederam a defesa. Eu comecei uma nova tese, quase do zero.

Lembram da qualificação? Se usei muito, foi umas cinco páginas das 226 páginas escritas.

Foram muitas noites investidas, muita solidão, recusa de convites e de ausências. Não me arrependo!

O crescimento

Foi um período de muito crescimento enquanto cientista social. Desde o momento da decisão de mudar a pesquisa eu sabia que a aposta era alta.

Não se muda o rumo de um transatlântico assim, de uma hora pra outra.

Eu apostei em mim. Acreditei na minha criatividade. Mais que isso, eu tive o apoio incondicional de meu orientador e de todos, que de alguma forma estava do meu lado. Até cheguei a ter um apagão criativo de tão intensa que foi essa jornada. Já contei pra você aqui!

A verdade é que nos 18 meses mais loucos e legais de minha vida, ao começar uma tese do zero, precisei acreditar que tudo iria dar certo.

Fiz tudo por acreditar em mim mesmo e também por ter pessoas que acreditavam em minha capacidade.

Defendi, fui aprovado sem nenhum comentário ou ajustes a fazer no texto quanto ao conhecimento que produzi. Sem querer ser gabola, a tese recebeu só elogios por parte da banca, que tá na foto aí embaixo. Só gente fera da área!

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Eu fiz questão de convidar todos os professores que haviam participado da validação do projeto. Eles precisavam ver que a tese tão criticada na qualificação tinha mudado de rumo.

Era uma nova tese. E era mesmo. Era também um novo eu.

O reconhecimento

Os resultados de toda a movimentação que fiz para que a tese tivesse a minha cara, refletisse minhas crenças, começaram a aparecer ainda ano passado.

O artigo que submeti para o EnAnpad 2019 foi eleito um dos três melhores artigos da área de Operações.

Ontem, dia 14 de março de 2020, fui informado que a tese, escrita a partir de um desejo de me mostrar o que eu acredito, foi considerada uma das três melhores tese do Programa de Pós em Administração da UNINOVE e participou da etapa interna para escolha de qual trabalho seria indicado a concorrer ao Prêmio Capes Melhor Tese de 2019.

O fato de ser considerado entre as melhores teses um programa forte como é na Uninove é uma grande recompensa por todo esforço feito.

Vendo tudo isso ser falado, você pode até pensar que é só mais um papo de acadêmico cheio de vaidade e gabolice.

Garanto a você que não é!

Esse papo é sobre aprendizados e lições. É sobre estarmos conectados com nós mesmos. Você quer ver?

  • Autoconhecimento nunca sai da moda. Saber quem somos já diminui boa parte do sofrimento quando precisamos fazer escolhas que podem nos definir no futuro. Acredite.
  • Não abra mão de suas crenças.
  • Nem de seus valores. Eles dizem muito mais sobre você do você possa imaginar.
  • Saber o que nos motiva na vida faz uma grade diferença na hora de tomar decisões. Se não sabe, tudo bem. Todos nós estamos aprendendo.
  • Tenha paixão pelo que acredita. Mas também saiba desapaixonar. É libertador deixar uma ideia ir embora quando ela tem que ir.
  • Trocar as lentes com as quais observamos a realidade que nos cerca pode gerar novas descobertas. Faça conexões que jamais imaginaram fazer.
  • Pensar fora da caixa, embora seja um chavão corporativo super batido, faz todo sentido se usado de maneira apropriada. Ouse fazer os caminhos que ninguém trilhou. Se não der certo, fica o aprendizado.
  • Não siga o roteiro que “todo mundo” já seguiu. Lembra de sua mãe. Você não é todo mundo. Ouse.
  • Esteja cercado de pessoas que acreditam em você e te apoiam. Isso faz toda diferença quando estamos em uma jornada que não conhecemos o caminho.
  • Não tenha medo da jornada. Vai sem medo. O máximo que pode acontecer é você ter que recomeçar e pedir mais prazo. Do chão ninguém passa. Lembra disso.
  • As críticas sempre virão. Absorva o que faz sentido e o resto joga pro universo. Com certeza elas vão servir para outra pessoa.
  • E por fim, o mais importante de todos os aprendizados. Seja GENEROSA/GENEROSO com você. O mundo não será.

Processando…
Sucesso! Você está na lista.


erivaldocarneiro

Oi, eu sou Erivaldo Carneiro. Se quiser, me chamar de Eri, tá tudo certo. Sou um aspirante a escritor e em breve você poderá me ler em qualquer banca de rua entre carregadores de celular, revistas vencidas e cigarros baratos. Gosto de falar sobre tudo, mas a minha paixão é pela Metodologia Científica. Ela já salvou minha vida. Pode salvar a sua. Também.

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