Precisamos falar sobre homofobia

Publicado por erivaldocarneiro em

A primeira pessoa que falei sobre a minha orientação sexual para uma pessoa heterossexual, foi minha amiga Luciene (Lu, para os íntimos). Ela era minha coordenadora na escola que eu dava aula de Biologia, lá pelos idos anos 2003-2004. Eu devia ter uns 23 anos. Não me lembro ao certo.

A reação dela foi a mais natural e linda possível. Lu, olhou para mim, no meio da praça de alimentação de um shopping e falou “Eri, eu já sabia, mas não tinha o direito de te perguntar ou questionar nada”.

Ela foi mais incrível ainda ao dizer “que está tudo bem, Eri” e completou “se Tauã (o filho dela) for metade do homem que tu é, eu já estarei feliz”.

Ao ouvir tudo aquilo, a minha reação não podia ser outra. Eu comecei a chorar feito criança. Contar para Lu aquele “segredo”, foi como tirar um peso de minhas costas.

Em casa e na minha família, eu nunca falei nada e hoje tenho todo apoio. Não foi sempre assim. Entre a minha infância e adolescência, até sair de casa para universidade, a minha vida não foi um mar de rosas.

Ser gay em uma cidade do sertão da Bahia na década 90 não foi uma tarefa fácil.

Ainda na infância, conheci o que era homofobia, sem nem mesmo saber o que era ser gay.

Homofobia é um negócio que impacta absurdamente a vida das famílias e das pessoas.

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Um dia desses, em uma conversa muito linda com meu irmão, ele me contou um segredo. Quando criança, ele brigava com os amigos por me chamarem de gay, veado, bicha e todos esses nomes. Ele me defendia sem nem saber do que me defendia.

A homofobia não era só direcionada a mim, era direcionada o meu irmão também.

Ele me contou nesta conversas que uma colega de trabalho me stalkeou em uma rede social e numa conversa “despretensiosa” o questionou sobre minha orientação sexual. O pior. Insinuou, que ele também era gay, já que eu era. Estamos em 2020, não é? Não parece!

E daí se ele fosse gay. E daí que eu sou? Percebe o quanto ela foi homofóbica?

Por conta de pessoas como esta “colega”, muitos LGBTQI+ preferem viver dentro de armários. Precisam viver um personagem.

Casos de depressão e distúrbios psicológicos são bem comuns e chegam junto com a vida de mentira que muitos precisam levar parta manter o emprego, ascender na carreira e por aí vai.

A verdade é que até que alguém no mundo saiba, que SIM, EU SOU UM LGBT, carregamos um segredo. Isso tem um impacto imenso na vida da gente.

Muitas vezes, precisamos guarda-lo para nossa própria proteção.

Proteção em casa, na rua, no trabalho, na igreja, nos bares. Precisamos viver dentro de armários até que nos sintamos seguros para sair dele.

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Você consegue imaginar o que é ter que esconder o que você é e quem você ama? Pois é essa realidade de muitas pessoas LGBTQI+ passam.

Você consegue imaginar o que é você sair de casa vivo e não saber se volta com a integridade garantida? Também passamos por isto diariamente.

Algum homofóbico pode resolver agredir no meio da rua, simplesmente por ser LGBTQI+.

Como é ser LGBTQI+ no Brasil

Em nenhum lugar do mundo é fácil ser uma pessoa LGBTQI+. Em alguns lugares é pior. Em outros é um pouco mais tranquilo. E aqui no Brasil, você já se perguntou como é ser LGBTQI+?

Desde que as eleições de 2018 acabaram, existe a percepção na comunidade de que a violência contra a população LGBTQI+ vem crescendo. A homofobia, lesbofobia, transfobia, ganharam as ruas, os espaços públicos, as casas. São agressões de todos os tipos. Verbais, físicas e psicológicas. De pessoas conhecidas e pessoas desconhecidas.

Estamos em constante perigo.

O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQI+ em todo planeta. Eu e qualquer um dos meus amigos, amigas e/ou amigues, podemos virar estatística a qualquer momento pelo simples fato de morar aqui e ser LGBTQI+.

Saímos vivos de casa mas não sabemos se voltamos. Entre janeiro e maio de 2019, a cada 23 horas uma pessoa foi morta por LGBTQI+fobia, de acordo o Grupo Gay da Bahia.

Falo tudo isso de um lugar de muitos privilégios.

Na escala dos que estão na fila para morrer pelo fato de ser LGBTQI+, eu sou um dos últimos.

Ser homem gay é um privilégio. Pessoas trans e travestis morrem antes do 35 anos de idade. A cor da minha pele, já me garante muito mais sobrevida do que um gay de pele preta. O lugar onde moro, me dá mais uma camada de privilégio. Ocorrem muito mais mortes de gays em regiões periférica.

Além de tudo isso, as nossas conquistas são frágeis. Elas não foram fruto do Legislativo. Todas elas foram via Suprema Corte. Casamento, adoção, doação de sangue, são exemplos de conquistas recentes. Toda via judiciário.

A Homofobia como rotina

Percebe a estrutura de ódio na qual, nós LGBTQI+ precisamos enfrentar, todos os dias, até chegarmos no trabalho?

Por isso, além de dar seu apoio em defesa de nossa comunidade, também seja gentil no ambiente de trabalho com o/a colega LGBTQI+.

Não sabe como? Vem cá! Tio Eri te ajuda.

  • Apoie as pessoas LGBTQI+ ao seu redor durante o isolamento social. De acordo o coletivo Vote #LGBT, a média de depressão na comunidade é quatro vezes maior do que no resto da população brasileira.
  • Não basta ser não ser homofóbico. Tem que ser anti homofóbico.
  • Dica prática – se você estiver diante de uma pessoa que não consegue identificar qual o gênero, pergunte como gostaria de ser tratado(a).
  • Casamento entre pessoas do mesmo sexo não é um benefício, é um direito;
  • Homofobia é crime e desde o ano passado, está enquadrada na Lei de Racismo;
  • Qualquer um pode ter comportamento sexual de risco;
  • Não faça perguntas estúpidas do tipo que é o homem ou mulher do relacionamento;
  • Preconceito deixa as pessoas mais burras. Empresas sediadas em países com lei anti discriminação tem 8% a mais de patentes em relação aos demais países;
  • Todo o ódio que é direcionado a nós tem a mesma origem no machismo e sexismo. Não reforce estes comportamentos;
  • Apoie o colega LGBT que acabou de chegar no escritório. Gentileza não mata ninguém;
  • Reforce para as crianças que o amor pode acontecer de qualquer maneira. Algumas crianças terão dois pais ou duas mães e tudo bem;
  • Inclua narrativas de afeto e carinho nas discussões com as crianças. Elas entendem a linguagem do amor;
  • Por último, se não tem nada de bom para dizer ou apoiar, fica calado(a). Só não seja omisso(a).

O que Celebramos Hoje

Hoje é o Dia Internacional de Combate à Homofobia e para você ter ideia, até 17 de maio de 1990, ser homossexual era ser doente, de acordo a Organização Mundial de Saúde. Só para lembrar, o termo usado era “homossexualismo”. O prefixo “ismo” é usado para doenças.

Ser uma pessoa gay era ter um distúrbio mental e tinha até CID. Por isso, o dia de hoje não é de celebração. É de conscientização. Temos muito o que avançar, principalmente na pauta das pessoas transexuais e travestis.

Mas estamos aqui, sobrevivendo. Precisando mais do que nunca contar com seu apoio e simpatia!

Vamos juntos?


erivaldocarneiro

Oi, eu sou Erivaldo Carneiro. Se quiser, me chamar de Eri, tá tudo certo. Sou um aspirante a escritor e em breve você poderá me ler em qualquer banca de rua entre carregadores de celular, revistas vencidas e cigarros baratos. Gosto de falar sobre tudo, mas a minha paixão é pela Metodologia Científica. Ela já salvou minha vida. Pode salvar a sua. Também.

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