Ei, você de cor branca, esse artigo é para você! Que tal assumir o nosso racismo?

Publicado por erivaldocarneiro em

A ficção científica tem aspectos que confere a ela o nome. Enquanto gênero literário, a sua incumbência é tornar possível o improvável. Criar novos mundos, alterar as regras da realidade e pensar alternativas. O cinema está cheio delas. O Brasil, também!

Analisando a realidade da população negra no Brasil é impossível não comparar com uma ficção científica. Ela é objeto de experiência. As cenas a seguir, são clássicos da ficção científica moderna à brasileira que temos vivido desde sempre. É o improvável tornado possível.

TOMADA 1 – Racismo Estrutural

Você está andando na calçada de uma cidade grande e de repente, vem uma pessoa no seu sentido contrário. Com o celular na mão, sua primeira reação é guardar o celular no bolso ou na bolsa. Se você adivinhar a cor da pele da pessoas que vinha no sentido contrário, te mando um chocolate. Mas isso não vem ao caso agora. A gente nem tá mais andando pela rua, não é?

TOMADA 2 – A carne mais barata do mercado

Um menino de 14 anos é assassinado pela PM do Rio de Janeiro no Complexo do Salgueiro. Seu corpo some e só encontrado pelos familiares no IML. 17 horas depois! Um tiro de fuzil, pelas costas. Uma desproporção. Qual a cor de João Pedro?

TOMADA 3 – Em qual século as pessoas moram?

Uma estudante de 15 anos é ofendida na internet por colegas de uma escola particular na Zona Sul do Rio de Janeiro em grupo de WhatsApp. Adivinha a cor da menina. E a cor dos agressores? O colégio emite uma nota de repúdio. Nenhuma ação concreta. Onde os agressores aprenderam a ser racistas? Não tenho dúvida. Foi em casa! Eu também aprendi lá!

TOMADA 4 – O egoísta

Todas as vezes que eu leio ou presencio estas cenas, em minha cabeça vem minha afilhada. (Eu sei, estou sendo egoísta) Chama Mainha de Vó Tai. É o nosso amor! Negra, está no primeiro ano do primário, estuda em uma escola particular lá em Riachão do Jacuípe – Bahia. Me pergunto, todos os dias, qual será o mundo que ela vai encontrar quando sair da proteção que damos a ela.

E o que estou fazendo? Nada! Realidade à Brasileira. E a minha culpa.

As expectativas não tem sido das melhores, não. Enquanto uma pessoa branca, não tenho feito muita coisa para mudar esse quadro. Cenas como as descritas nas tomadas 1, 2 e 3 já se tornaram tão naturais que nem nos damos conta mais do quão inserido o racismo está na nossa sociedade e nós, pessoas brancas, temos toda a responsabilidade por isso.

Somos Racistas!

NÃO NOS ASSUMIMOS ENQUANTO RACISTAS! E aí mora o problema. Uma coisa só existe, quando nomeamos ela. Não é o caso do racismo.

A imagem a seguir, reflete muito o nosso comportamento e foi retirada do Instagram de um amigo preto. Não vou citar o @ por questões de estamos numa ficção científica à brasileira. O improvável não só é possível, como é real.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Não pensamos, não falamos, não discutimos sobre o racismo. Continuamos na nossa zona de conforto. E o pior. Se alguém diz que o país é racista, chama de lunático. Quem já se viu? Quilombolas só servem para procriar, talkei?

Se chamar o país de racista já é motivo para estresse, imagina se assumir racista?

Aí mora a face mais complicada do racismo. Quando ele é legitimado pelo Estado. Temos uma polícia que tem alvo e preferência. O assassinato de João Pedro não foi acidente. É este o cenário que as pessoas de pele preta, em sua grande maioria estão submetidos diariamente.

É racismo do estado escancarado. E aí, vai um(a) preto(a) falar sobre racismo? É papo de mimimi. Se um(a) preto(a) vem falar que somos privilegiados pela cor, damos de ombros. Privilégio? Jamais. Já nasci assim. Não tenho culpa!

Sinto dizer, que sim. Você tem culpa sim!

Nós, os brancos, privilegiados.

A polícia não nos para, não nos incomoda, não se importa se estamos sem documentos. E aí nasce o privilégio branco.

Andar em shopping e não ser seguido por um segurança? Só pode ser branco! E os mais desavisados, nem percebe isso. Os brancos. Os pretos? Já sabem que um movimento brusco pode custar a vida.

Nunca me preocupei em estar correndo atrasado para um compromisso na Paulista. Mas já vi preto sendo parado por desconhecido e sendo questionado o motivo da “pressa”!

Na testa destas pessoas tem um tarja invisível. Sou bandido! Sou ladrão! Colocada por nós, brancos!

E isso tudo é racismo. Não nos indignamos! O improvável se tornou possível. Onde está a nossa humanidade? Perdemos a capacidade de nos comover com os corpos pretos que morrem.

Temos seletividade do que vai nos comover.

Precificamos, como se estivéssemos numa bolsa de valores. Oferta e procura! Os corpos pretos. É claro. Não dá like, não vai por feed. Um cachorro morto por alguém no bairro de bacana gera mais comoção, inclusive por parte dos meio de comunicação.

Indignação para que? É só mais um na favela. Todo dia morre gente.

Vestidos de nosso privilégio da cor. Branca, é claro. Essas coisas parecem não afetar.

Mas como não afeta? Só quando vem alguém do outro lado da calçada e da sua mente, o sinal. Guarde o iPhone X, ele tem vai te roubar. Ele é preto. É bandido.

Esta é a face cruel do racismo estrutural de nosso país. Somos treinados, desde pequenos, quem é o bandido. Tem cor.

Aliás, a imprensa também cumpre com maestria esse papel de validar a ficção científica que os pretos deste país estão submetidos diariamente.

Sempre associa a bandidagem com pessoas de cor. É uma bomba semiótica.

No cérebro de todas as pessoas de cor branca, o caminho neural que identifica uma pessoa suspeita está traçado. É um homem de pele preta.

Erivaldo, você está exagerando!

Disse você que me lê…

Desculpa, não estou.

Se você fizer um rápido exame de consciência e verá que tudo que falei até agora é verdade. Eu sou igual a você, “Dear white people”. E você é igual a mim nesse quesito.

Não é intencional. De propósito. É uma reação automática. Nos ensinaram que pessoas suspeitas tem cor. E ela não é branca.

O racismo estrutural é isso. Nos torna racista e nem percebemos que estamos sendo racista. Fazemos morada na nossa branquitude. Por falar nisso, você Portal Geledés e você vai entender. Mas te adianto:

A branquitude é um lugar de privilégios simbólicos, subjetivos, objetivo, isto é, materiais palpáveis que colaboram para construção social e reprodução do preconceito racial, discriminação racial “injusta” e racismo.

Nós, os brancos, estamos vestidos e protegidos por todos os privilégios que a nossa cor, historicamente nos confere. Aos brancos estão reservados as melhores posições e empregos.

Na Ciência, o racismo também mostra sua força.

E nós, descaradamente não fazemos nada para mudar essa situação. O racismo é algo tão desumano, que até mesmo no ambiente considerado o mais democrático possível, a academia, as pessoas pouco se importam com o tema.

Se formos para Administração, a coisa fica mais complicada. Basta olhar quantos CEOs de pele preta temos por aí…

Falo isso de um lugar de quem está envolvido em pesquisas que analisam a produção acadêmica e o racismo na Administração. É uma vergonha! Em breve eu voltarei a falar sobre isso!

Para finalizar, quero convidar você, meu amigo e minha amiga de pele branca e privilegiado pela cor, a entrar nesta luta contra o racismo. Pergunte aos seus amigos de pele preta como você pode ajudar. Mas lembre-se você não será protagoniste. Ofereça seu suporte. Seja gentil e se engaje. Precisamos tornar o mundo um lugar pra todes.

Para hoje e sempre, nós, brancos e brancas precisam assumir os privilégios nos espaços que frequentam, inclusive no mercado de trabalho. É nossa culpa! E depende de nós. Como diz Angela Davis:

Não basta não ser racista, é necessário ser antirracista.

Gostou muito deste Artigo e não quer perder os próximos? Assine minha newsletter. Fica tranquilo, eu também não gosto de spam.

Sobre o autor:

Eu sou Erivaldo Carneiro e acredito que podemos fazer da Terra um lugar melhor para TODES. Baiano, escritor, Mestre e Doutor em Administração, amo comer acarajé, sei fazer moqueca e chamo minha mãe de Mainha. Sou entusiasta de todos os assuntos que podem ajudar a humanidade a melhorar o planeta. Curto demais orientar trabalhos científicos ou que de alguma forma tenham relação com a academia.

Você pode acompanhar minha rotina de escritor e acadêmico no meu Instagram (@eridabaea), receber dicas sobre o mundo acadêmico no meu canal Mentoria Acadêmica no Telegram, ter acesso a conteúdos exclusivos assinando a minha newsletter.


erivaldocarneiro

Oi, eu sou Erivaldo Carneiro. Se quiser, me chamar de Eri, tá tudo certo. Sou um aspirante a escritor e em breve você poderá me ler em qualquer banca de rua entre carregadores de celular, revistas vencidas e cigarros baratos. Gosto de falar sobre tudo, mas a minha paixão é pela Metodologia Científica. Ela já salvou minha vida. Pode salvar a sua. Também.

0 comentário

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: