Como ser uma pessoa autêntica em um mundo de gente fake?

Publicado por erivaldocarneiro em

Lá pelos anos 2002/2003, se alguém me falasse a frase que dá título a este artigo, com certeza desconfiaria que a pessoa estava querendo me dizer algo.

Pensamentos do tipo “será que ela sabe algo sobre mim?“, “qual o motivo pra me falar isso?“; “acho que meu segredo foi descoberto!” seriam comum passar pela minha cabeça.

Eu morava no armário, e ser autêntico, ao meu modo, poderia significar expor a minha orientação sexual. E claro, alguém poderia descobrir quais eram as minhas cores. As do arco-íris, nesse caso.

Se Coco Chanel, estivesse viva, iria completar, hoje, 19 de agosto de 2020, 137 anos. Ela, melhor do que ninguém é a definição do que é ser uma pessoa autêntica, tendo apenas o preto como sua cor de refeência.

“A melhor cor do mundo é aquela que fica bem em você.” Coco Chanel

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E mesmo após 137 anos, a bicha continua sendo ícone de uma época, de um estilo, de autenticidade e de frases icônicas, também…

“O ato mais corajoso ainda é pensar por si mesmo. Em voz alta.” Coco Chanel

E antes que você pense, esse artigo não é sobre moda ou a pauta LGTBQI, mas também é. Também é sobre como as “Instituições” e a sociedade nos moldam, fazendo com que percamos a nossa autenticidade.

Para começar…

Um pouco da Teoria Institucional

Calma, ela não morde! Não fica com medo, só porque tem o nome Teoria na frente.

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Meu primeiro contato com a Teoria Institucional foi nas aulas de Estratégia de Organizações no Doutorado. Saudações ao meu querido Professor Fernando Serra! Eu fiquei encantando, como um conceito tão simples, definia tanta coisa em minha cabeça.

De acordo com a Teoria Institucional, os acontecimentos sociais, políticos, econômicos e culturais que formam o meio, acabam por determinar as preferências individuais. Logo, as empresas (instituições) são uma construção humana e o resultados de suas interpretações e subjetividades.

Ao ver as primeiras definições, ficou claro que o escopo dela era baseado na padronização de comportamentos e relações sociais dentro das organizações, um reflexo do mundo do mundo real.

No fim das contas, o sonho de toda empresa é criar uma identidade organizacional e um ambiente social estável. Por tabela, mais fácil de controlar.

Nunca mais fui mesmo depois disso e, então, passei a analisar o comportamento das pessoas ao meu redor. E o meu também. Na época eu era um Faria Limer (Sim, eu já fui este tipo de ser humano) e aquela população me pareceu um lugar perfeito para comprovar a teoria.

E aqui, um esclarecimento:

Muito antes da Veja SP fazer aquela matéria, que anunciava o azul claro e o branco, como as cores “padrão” dos Faria Limers, a minha conclusão, por observação, foi de que estávamos diante de um caso de padronização da vestimenta.

E onde fica a autenticidade?

Essa matéria foi um deboche só e rendeu ótimos memes, que fique aqui registrado.

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Mas voltando ao papo…

O mais engraçado é que quando virei um Faria Limer, após a primeira semana, conclui que precisava “dar um tapa” no meu guarda roupa, para entrar no “padrão”.

Terno cinza justo, camisa azul bem claro (ou branca) e sapatos preto sempre lustrados. Minha única rebeldia era ir de tênis pro trabalho e trocar de sapato no escritório.

Como ser autêntico num ambiente altamente padronizado?

Claramente, quando “decidi” mudar de roupa, padronizei meu comportamento, também. Quando cheguei lá, o ambiente social já tinha estabilidade. Portanto, minha vestimenta foi “institucionalizada”. Foi automático!

Quando vi, já tava todo cocota na nova farda. Usando os mesmos óculos escuros e de grau.

Até digo que meu comportamento precisou ser adequado para a realidade Faria Limer. E, muitas vezes, deixei minha autenticidade de lado. Tudo por conta do mood do ambiente. Não foi intencional. Foi uma questão conformidade.

Uma contextualização

Eu sempre tive vontade de descolorir meu cabelo. Na década de 90, teve uma época que virou moda descolorir os cabelos. E pintar, também. Todo mundo descoloriu e pintou, mas eu não era todo mundo, de acordo Dona Eutália, então nunca descolori nem pintei os cabelos.

O tempo passou, entrei na universidade, fui trabalhar num lugar, digamos assim, que não tinha muito a ver o cabelo descolorido. Atender o público em um banco e ter o cabelo descolorido, não passava uma boa imagem. Nem pro público, nem pra chefia.

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A indústria financeira é quadrada. Não tem tanta apreciação pelo diferente. Além de ser machista, misógina e LGBTQIfóbica. Entendi rápido que precisava me enquadrar. Ninguém nunca me disse, mas senti. Nunca perguntei, mas sabia que não era adequado desde o começo.

Quando estamos começando a nossa carreira, temos mais inseguranças que certezas.

Mas sabe como é…

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A gente cria fantasmas que não existem e convive com eles sem nem saber o motivo. Esses fantasmas às vezes nos protegem. Acho que todo LGBTQI aprender a cuidar deles (os fantasmas) desde criança.

A virada de mesa

O ano era 2016, estava no segundo ano do doutorado. Deixei de ser Faria Limer, passei a trabalhar no Centro de São Paulo e só precisava ir ao banco duas vezes na semana.

Mas, um desejo latente estava ali, guardado lá no fundo. Descolorir meu cabelo. 

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E nojo que eu fiquei com esse louro? Você não tem noção!

Num sábado frio de inverno em São Paulo, acordei cedo e fui num salão da Rua Barão de Limeira, ali quase na altura da Folha de São Paulo. A sensação de estar ali, sentado na cadeira, realizando aquele desejo, eu não esqueço nunca. Foi um misto de eu mando na minha vida com foda-se as regras.

Pena que durou pouco…

Três semanas depois, eu precisei passar a máquina 1 na cabeleira. Tive que vir à Brasília para um evento.

Mais uma vez, eu precisei ser conforme.

Quando eu olho para tudo isso, sinto que fiz o que precisava fazer. Não me arrependo de nada. Saber lutar com as armas que temos, é autopreservação.

Mas hoje, depois de estar no meio de uma pandemia, se tem uma coisa que está muito clara, é que ninguém deve perder sua autenticidade para se encaixar os padrões.

Ainda bem que algumas empresas começam a dar sinais que irão apostar na autenticidade das pessoas. Não dá mais pra vivermos cobertos por máscaras.

Por aqui, uma certeza:

EU NÃO ME ENQUADRO MAIS!

E um conselho:

A sociedade que lute!

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Sou quem eu quero ser e só estarei onde eu seja aceito em minha inteireza. Essa capa da aceitação e do enquadramento nas normas sociais, não é um problema meu. É um problema seu e da sociedade.

Um possível conclusão…

Todes nós, de alguma forma e em algum momento da vida, estaremos expostes às pressões institucionais nos mais diversos ambientes. Na maioria das vezes, a gente vai precisar se adequar para estar conforme. O grande desafio é perceber se aquilo faz sentido e o quanto vamos perder de autenticidade.

Não é uma escolha fácil, principalmente num cenário que o desemprego está em super alta, os boletos não param de chegar e a vida não tem sido fácil. Cada um tem sua própria história de vida. A luta de todos nós é ter o básico para viver. Mas e se o básico fosse baseado na sua autenticidade?

Te desejo uma jornada de muito mais autenticidade. Estou percorrendo a minha e tem sido de muito autoconhecimento. Já adianto que não tem fórmula pronta. Então, comece por algo simples e quando você for ver, você estará conectado com sua autenticidade.

E você, já precisou se enquadrar e resolveu chutar o balde? Conta pra mim!

Categorias: devaneios

erivaldocarneiro

Oi, eu sou Erivaldo Carneiro. Se quiser, me chamar de Eri, tá tudo certo. Sou um aspirante a escritor e em breve você poderá me ler em qualquer banca de rua entre carregadores de celular, revistas vencidas e cigarros baratos. Gosto de falar sobre tudo, mas a minha paixão é pela Metodologia Científica. Ela já salvou minha vida. Pode salvar a sua. Também.

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