A vida não está nem aí para suas promessas de ano novo

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

Não precisa chorar arrependido

pelas besteiras consumadas

nem parvamente acreditar

que por decreto de esperança

a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,

Carlos Drumond de Andrade, Receita de Ano Novo

Em cinco minutos a meia noite iria chegar. Já tinha experimentado aquela sensação da espera pela contagem regressiva para o novo ano. Não foi diferente no último dia do ano de 2019. Mas dessa vez eu estava só.

Em meu apartamento, localizado na Asa Norte de Brasília, a minha melhor amiga desde que saí de São Paulo, uma caixa de som JBL, tocava uma versão remixada de Anunciação do Mago Alceu Valença.

Desde setembro havia decidido que meu ano novo seria diferente. Iria passar sozinho. Sem pessoas, sem fogos, dentro de casa. De minha casa, sem barulho de gente, sem os falsos felizes anos novos da multidão de desconhecidos (já fui muito bom nisso), recebi 2020 de peito aberto, só e com meus pensamentos.

A última década foi uma década e tanto. Ainda estou nela. Considero a “minha década”. Foram aprendizados, dores, angústias, desafios, muito trabalho e estudo. Formei em Contabilidade em 2011, defendi Mestrado em 2015, Doutorado em 2019. Realizei o sonho de morar fora.

“O negócio é o seguinte: o passado aconteceu, foi bom, mas não volta mais. Agora a gente tá noutra. Você está na beira de uma escada e tem muitos degraus pra subir. Cada degrau é uma tremenda vitória que tem que ser muito comemorada. Olhar pra trás não adianta. Aconteceu.”

Marcelo Rubens Paiva, Feliz Ano Velho

Foi uma década cansativa, também. E barulhenta. Praticamente morei em São Paulo boa parte dela. Isso por si só, já merece um ponto de discussão. Mas não é o foco aqui.

São Paulo é como o mundo todo

No mundo, um grande amor perdi

Vaca Profana, Caê da Bahia

A virada de 19-20 seria a primeira, em muito tempo, sem a preocupação e as responsabilidades que a vida de estudante, principalmente de mestrado e doutorado me davam.

E aí, para ser mais exato, na passagem anterior de ano, quando 2019 entrou, eu ainda não tinha terminado a tese e o prazo estava para acabar. E ainda faltavam coisas para fazer. Foi um ano novo feliz, mas com preocupações e muitas vozes dentro da cabeça. De minha cabeça. 

Então, quando resolvi passar a virada do ano sozinho, quis apenas ouvir o silêncio. O meu silêncio.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Não tive o hábito de me ouvir na última década. O trator que me tornei, as noites em claro para dar conta da vida de trabalhador do mercado financeiro e de estudante, de fato, não me permitiram ouvir muita coisa.

Às vezes esta é única coisa a se fazer.

Não se ouvir pode ser uma boa alternativa quando oportunidade únicas batem na sua porta.

Não meu furtei e abracei tudo que apareceu pela frente.

Desconfio que deu certo, mas voltando ao ano novo…

Celebrar o ano novo é celebrar clichês. É tempo de avaliar como foi o ano que vai embora. Entender onde erramos, acertamos e podemos melhorar. É tempo de renovar os votos. De termos uma conversa franca com nossos sentimentos.

Fazermos promessas… 

Quase nunca cumpridas e quando a euforia do carnaval passa, já não recordamos de mais nada.

Dia desses aí, andei me lembrando das promessas que fiz para 2020. Todas elas, sem exceção de nenhuma, quando o carnaval passou, não faziam mais nenhum sentido. Mas, incrivelmente eu lembrava de todas. Todas. TODAS!

Talvez tenha sido, porque, pela primeira vez na vida, um plano estava todo traçado, com data de início e fim. Tudo estava tão esquematizado. Tão cheio de passo a passo.

Aquilo ficou martelando em meu juízo. Como se lembrar das promessas antes feitas e sempre esquecidas? Talvez o meu cérebro quis me lembrar que a vida não está nem aí para nossas promessas. Ainda mais para os nossos planos

E ao aceitar o incerto e abraçar, com força, as nossas dificuldades, no tornamos humanos.

Acho que no último ano da década, me lembrar de todo planejamento e promessas que deveriam ter sido esquecidas, pode ser um convite para compreender mais da minha humanidade. Talvez o modo trator ainda estivesse ativado.

De todas as promessas feitas, a única esquecida foi a cumprida. Parei de fumar. Talvez tenha sido por ter planejado parar antes do carnaval. Parece que deu certo.

Daqui fico a pensar…

A gente costuma dizer que o ano só começa depois do carnaval. Será mesmo? E se todos estes anos a gente tenha sido enganades? E se o ano, de fato, acaba no carnaval.

Por via das dúvidas, para os próximos anos, vou tentar resolver tudo antes do carnaval. Vai que as promessas precisem ser lembradas novamente depois da Celebração de Momo?

A propósito, você ainda lembra de tudo que você se prometeu cumprir em 2020?

Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre.

Carlos Drumond de Andrade, Receita de Ano Novo

 Feliz Promessas de Ano Novo!

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Eu sou Eri Carneiro e tenho muitos interesses. Na Escola de PhDs, a primeira escola de superpoderes para Profissionais com habilidades Desenvolvidas do Brasil. Nela, eu mentoro e ajudo pessoas em transição de carreira, sejam elas da academia ou não. Minha maior paixão é a sala de aula e curto demais compartilhar tudo que aprendo, por esta razão, antes de qualquer coisa, me considero Professor. Me considero um escritor e um criador de conteúdo para internet. Também me aventuro pelo mundo dos Podcasts e apresento Travessia de Carreira e o Pode Meme. Como acadêmico, tenho os títulos de Mestre e Doutor em Administração. Como cientista, pesquiso nas áreas de Sustentabilidade, ESG, Gestão da Diversidade, Riscos e Métodos.